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Dezembro 29, 2011 / yurios

Carta à Malva.

Pintura de Pierre-Auguste Renoir

Pierre-Auguste Renoir

Talvez tudo tenha passado muito rápido e eu não vi quando você se esgueirou do seu mundo e foi espreitar o meu. Talvez tenha sido naquele dia em que você, sem motivo aparente, foi falar comigo, assim, daquele seu jeito retraído, usando gestos delicados, com um sorriso lindo e um cheiro que me fazia olhar para o céu numa tentativa boba de mascarar o arrepio do meu corpo.

Não tenho dúvida que tu sabias o quanto eu ficava vermelho quando ia conversar contigo e que tu sentias os saltos malucos dados pelo meu coração a cada abraço seu. Acho que você gostava disso, eu sentia tuas palavras hesitando quando nossos rostos estavam muito próximos, tua respiração falhando, tua boca se entreabrindo… Ficávamos parados, assim, um para o outro, acanhados, esperando que o outro desse o primeiro passo; o passo para uma felicidade tão genuína e sincera quanto nossas almas podiam oferecer; passo para  o fim dos sonhos, para o casamento, os filhos, a velhice.

Nossos filhos vivendo suas vidas. Eu lhe acordaria, desceria as escadas com o cuidado que a minha idade necessitava, prepararia o café. Você vinha, comeríamos, riríamos, choraríamos, sentaríamos nas nossas cadeiras velhas e, por fim, falaríamos do quanto fomos felizes, falaríamos de todas as dificuldades que passamos, e o quanto aprendemos com ela. Olharíamos para o céu, o mesmo céu que vimos tantos anos atrás, e entenderíamos o quanto a vida ainda pode ser bela.

Tudo por um passo, um simples passo… Que nunca foi dado.

Lembro-me daquele outono amargo em que você arrumara as últimas caixas no caminhão de mudanças. Prometemos tanta coisa naquela época, mas tantas coisas aconteceram que acabamos nos afastando, dando o tempo como desculpa, e o tempo passou. Passaram-se os anos. Virei pintor, e te pintei dezenas de vezes. E foi quando teus retratos valiam milhares de reais tu voltou.

Voltou com um marido, dois filhos e o mesmo lindo sorriso que via tantas vezes nas minhas pinturas.

Lembro-me como fiquei sem jeito ao conversar contigo. Você me encontrou vendo seu próprio rosto embaçado envolto de molduras penduradas nas paredes de um museu da cidade. E que desculpa tinha eu a dar? O que justificava a pintura de dezenas de seus quadros mostrando várias realidades de nós juntos a não ser um amor desesperado e ardente? Uma pausa para o café. Um passeio no parque. Uma volta de barco…

Nós dois num banco de praça? Sim, esse também foi pintado, e foi nesse mesmo banco, hoje já desbotado, que nos sentamos depois de tantos verões separados. Contamos vários retalhos de nossas vidas, e, quando mais eu sabia, mais eu entendia o quão longe da realidade eu estava.

O Sol morria naquela tarde com tanta força quanto os meus sonhos, e foi com a mesma intensidade que eu registrei nossa momento numa tela. Uma grande tela. Uma última tela. E aquele entardecer foi pintado com o meu sangue, pois, se não posso te ter nesse mundo injusto, então que eu me misture à paisagem e me eternize nessa imagem. Que eu me eternize em meu desejo. Em minha obra. Em você.

Pois eu sei que, cada vez que você admirar a majestade de um pôr do Sol, irá ver naqueles brilhos vermelhos quentes e disformes que a luz faz com as nuvens o serpentear de minhas veias vazadas, da minha carne dilacerada, mas do meu amor… incólume.

com carinho,

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