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Outubro 31, 2011 / yurios

Limbo

La descente du Christ dans les Limbes - Beccafumi, Domenico

Sentamos num batente de escada, dessas de madeira mesmo. Tudo parecia mais vivo naquele dia, é o que acontece quando mergulhamos no nervosismo, você fica mais esperto, mais atento, talvez seja nosso instinto de sobrevivência, aquela certeza amarga de alguma coisa estar errada, parece que eu podia escutar todos os sons que se intercalavam naquele caos de vozes. Acho que olhei pra ela algumas vezes, tentando semear as palavras naquele clima gélido, naquele silêncio perturbador da gente; aquele sentimento louco que te faz ser comido pelas próprias entranhas. Meu coração enlouquecia, minha boca ressecava, minha alma ardia, e aquele cheiro… “Sabe…”, Tum-tum, Tum-tum,… Que eu nunca soube…  “Eu estive pens…”, Tum-tum, Tum-tum,… Qual era…

-Oi? Falou algo?

– Eu estive pensando, talvez seja melhor pararmos por aqui…

“Ah, então era isso que ela queria, e não havia realmente de ser outra coisa, era o que esperávamos. Acho que, de uns tempos pra cá, apenas brincávamos um com o outro, apenas nos apoiávamos, nos usávamos de suporte, um suporte para agüentar melhor as pancadas do mundo. Não havia amor, nem paixão, havia apenas um contrato mudo de duas almas envergonhadas das humilhações já sofridas.

Mas por que dói? Por que sempre dói? Por que agonizamos sufocados pela idéia de culpa? Sufocamos pelo peso morto do passado inexorável. Olhamos para ele e vemos que vivíamos de uma forma tão simples. Apenas encontrávamos alguém na rua e convidávamos para a brincadeira. Apenas isso, não havia outro motivo, era tudo que o coração puro de uma criança necessitava. Hoje, aprendi a manipular os outros e a deixar ser manipulado. Tudo, simplesmente tudo para tentar me encaixar nesse presente amorfo, presente sem ciranda, sem pirulito e sem soneca. Troquei tudo isso por relacionamentos complicados e dolorosos.

Ela veio, ela ficou e ela foi; e eu esperei e sorri e chorei. Tudo tão rapidamente que mal parei pra pensar no quanto que mergulhávamos, no quanto que deixávamos nos conduzir pelo acaso de nossas vidas. Cada vez mais fundo, estávamos cegos, por isso não víamos a luz se dissipando enquanto nos adentrávamos nas cavernas abissais do subconsciente. Estava inerte, e, inerte, fui puxado tão rápido pra cima que me encontro tão confuso quanto uma pessoa que, ao ter decepado recentemente uma mão, tenta pegar algo subconscientemente usando-a, mas tudo o que se vê é uma cicatriz. O que sinto agora é uma náusea forte do peso da verdade em minhas costas: a certeza de que isso é um ciclo, e que ele vai me perseguir até o fim, como uma alma maligna disfarçada pelas silhuetas perfeitas de uma sereia.

Sinto falta dos meus piolhos.

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