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Setembro 1, 2015 / yurios

Falta

Não há suspiros, não há rubor

não há arroubos descontrolados

não há encanto, não há amor

não há olhares apaixonados

Não há confissões, não há acuidade

Não há aqueles carinhos tão sutis

Nem aquelas tentativas tão gentis

Formadoras da intimidade

Não há certezas para comemorar vitórias

Não há narração para clamar as glórias

Há apenas a marcha sem brados de guerra

Há apenas as emboscadas sem gritos de alerta

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Agosto 16, 2015 / yurios

Retorno.

O mundo galgou quatro voltas ao Sol para que eu voltasse a esse antigo blog que escrevia no intuito de sangrar a represa das minhas dores a quem quisesse saber.

Quando olho hoje para tudo que sentia e escrevia, sinto tremores no meu íntimo, fazendo emergir os sedimentos que o tempo depositou em meio a um mar que, com muito custo, aquietou-se. Contudo, de tanto me fazer chover nesse mar, minhas águas hoje cobrem largura e profundidade o suficiente para que essa sujeira em nada me abale, diluindo-se, vencida, pela imensidão.

Com o tempo percebi que a paixão é um luxo que te satisfaz de uma vez, mas te cobra em prestações de juros altos. Que é um fogo que só deve se aproximar o suficiente para se manter aquecido.

Com o tempo percebi que o amor só existe depois de muitos anos, que exige suor e esforço de ambos para que se construa. É de se lamentar quando observamos que muitos casais poderiam se amar com tranquilidade, mas terminam no primeiro tropeço, na primeira derrota e no primeiro “não”. Pessoas desejam o amor da mesma forma que desejam um carro ou outro artigo de luxo: preferem gastar seu tempo se lamentando por não ter do que batalhando para conquistar.

Com o tempo eu percebi que todas as juras de amor são sinceras, mas seus laços são frágeis. Que precisa ter muita hombridade para se fazer uma promessa e que sábio é aquele que aprende a falar num abraço, pois reconhece que tem momentos em que as pessoas precisam mais de alívios do que de soluções.

Por fim, com o tempo eu percebi que as promessas eternas de amor perderam a validade, e as únicas pessoas que permanecem do seu lado nunca lhe prometeram nada para ficar onde estão.

Dezembro 29, 2011 / yurios

Carta à Malva.

Pintura de Pierre-Auguste Renoir

Pierre-Auguste Renoir

Talvez tudo tenha passado muito rápido e eu não vi quando você se esgueirou do seu mundo e foi espreitar o meu. Talvez tenha sido naquele dia em que você, sem motivo aparente, foi falar comigo, assim, daquele seu jeito retraído, usando gestos delicados, com um sorriso lindo e um cheiro que me fazia olhar para o céu numa tentativa boba de mascarar o arrepio do meu corpo.

Não tenho dúvida que tu sabias o quanto eu ficava vermelho quando ia conversar contigo e que tu sentias os saltos malucos dados pelo meu coração a cada abraço seu. Acho que você gostava disso, eu sentia tuas palavras hesitando quando nossos rostos estavam muito próximos, tua respiração falhando, tua boca se entreabrindo… Ficávamos parados, assim, um para o outro, acanhados, esperando que o outro desse o primeiro passo; o passo para uma felicidade tão genuína e sincera quanto nossas almas podiam oferecer; passo para  o fim dos sonhos, para o casamento, os filhos, a velhice.

Nossos filhos vivendo suas vidas. Eu lhe acordaria, desceria as escadas com o cuidado que a minha idade necessitava, prepararia o café. Você vinha, comeríamos, riríamos, choraríamos, sentaríamos nas nossas cadeiras velhas e, por fim, falaríamos do quanto fomos felizes, falaríamos de todas as dificuldades que passamos, e o quanto aprendemos com ela. Olharíamos para o céu, o mesmo céu que vimos tantos anos atrás, e entenderíamos o quanto a vida ainda pode ser bela.

Tudo por um passo, um simples passo… Que nunca foi dado.

Lembro-me daquele outono amargo em que você arrumara as últimas caixas no caminhão de mudanças. Prometemos tanta coisa naquela época, mas tantas coisas aconteceram que acabamos nos afastando, dando o tempo como desculpa, e o tempo passou. Passaram-se os anos. Virei pintor, e te pintei dezenas de vezes. E foi quando teus retratos valiam milhares de reais tu voltou.

Voltou com um marido, dois filhos e o mesmo lindo sorriso que via tantas vezes nas minhas pinturas.

Lembro-me como fiquei sem jeito ao conversar contigo. Você me encontrou vendo seu próprio rosto embaçado envolto de molduras penduradas nas paredes de um museu da cidade. E que desculpa tinha eu a dar? O que justificava a pintura de dezenas de seus quadros mostrando várias realidades de nós juntos a não ser um amor desesperado e ardente? Uma pausa para o café. Um passeio no parque. Uma volta de barco…

Nós dois num banco de praça? Sim, esse também foi pintado, e foi nesse mesmo banco, hoje já desbotado, que nos sentamos depois de tantos verões separados. Contamos vários retalhos de nossas vidas, e, quando mais eu sabia, mais eu entendia o quão longe da realidade eu estava.

O Sol morria naquela tarde com tanta força quanto os meus sonhos, e foi com a mesma intensidade que eu registrei nossa momento numa tela. Uma grande tela. Uma última tela. E aquele entardecer foi pintado com o meu sangue, pois, se não posso te ter nesse mundo injusto, então que eu me misture à paisagem e me eternize nessa imagem. Que eu me eternize em meu desejo. Em minha obra. Em você.

Pois eu sei que, cada vez que você admirar a majestade de um pôr do Sol, irá ver naqueles brilhos vermelhos quentes e disformes que a luz faz com as nuvens o serpentear de minhas veias vazadas, da minha carne dilacerada, mas do meu amor… incólume.

com carinho,

Outubro 31, 2011 / yurios

Limbo

La descente du Christ dans les Limbes - Beccafumi, Domenico

Sentamos num batente de escada, dessas de madeira mesmo. Tudo parecia mais vivo naquele dia, é o que acontece quando mergulhamos no nervosismo, você fica mais esperto, mais atento, talvez seja nosso instinto de sobrevivência, aquela certeza amarga de alguma coisa estar errada, parece que eu podia escutar todos os sons que se intercalavam naquele caos de vozes. Acho que olhei pra ela algumas vezes, tentando semear as palavras naquele clima gélido, naquele silêncio perturbador da gente; aquele sentimento louco que te faz ser comido pelas próprias entranhas. Meu coração enlouquecia, minha boca ressecava, minha alma ardia, e aquele cheiro… “Sabe…”, Tum-tum, Tum-tum,… Que eu nunca soube…  “Eu estive pens…”, Tum-tum, Tum-tum,… Qual era…

-Oi? Falou algo?

– Eu estive pensando, talvez seja melhor pararmos por aqui…

“Ah, então era isso que ela queria, e não havia realmente de ser outra coisa, era o que esperávamos. Acho que, de uns tempos pra cá, apenas brincávamos um com o outro, apenas nos apoiávamos, nos usávamos de suporte, um suporte para agüentar melhor as pancadas do mundo. Não havia amor, nem paixão, havia apenas um contrato mudo de duas almas envergonhadas das humilhações já sofridas.

Mas por que dói? Por que sempre dói? Por que agonizamos sufocados pela idéia de culpa? Sufocamos pelo peso morto do passado inexorável. Olhamos para ele e vemos que vivíamos de uma forma tão simples. Apenas encontrávamos alguém na rua e convidávamos para a brincadeira. Apenas isso, não havia outro motivo, era tudo que o coração puro de uma criança necessitava. Hoje, aprendi a manipular os outros e a deixar ser manipulado. Tudo, simplesmente tudo para tentar me encaixar nesse presente amorfo, presente sem ciranda, sem pirulito e sem soneca. Troquei tudo isso por relacionamentos complicados e dolorosos.

Ela veio, ela ficou e ela foi; e eu esperei e sorri e chorei. Tudo tão rapidamente que mal parei pra pensar no quanto que mergulhávamos, no quanto que deixávamos nos conduzir pelo acaso de nossas vidas. Cada vez mais fundo, estávamos cegos, por isso não víamos a luz se dissipando enquanto nos adentrávamos nas cavernas abissais do subconsciente. Estava inerte, e, inerte, fui puxado tão rápido pra cima que me encontro tão confuso quanto uma pessoa que, ao ter decepado recentemente uma mão, tenta pegar algo subconscientemente usando-a, mas tudo o que se vê é uma cicatriz. O que sinto agora é uma náusea forte do peso da verdade em minhas costas: a certeza de que isso é um ciclo, e que ele vai me perseguir até o fim, como uma alma maligna disfarçada pelas silhuetas perfeitas de uma sereia.

Sinto falta dos meus piolhos.

Outubro 21, 2011 / yurios

           Cantiga de amigo da Lua para o Sol

Calmaria

de uma onda breve

que surge pelo meu suspiro

ao te ver passar.

Outubro 12, 2011 / yurios

Até quando tu irás esperar?

Nós nascemos puros e imaculáveis. Com um olhar inocente e um desejo puro de amar. Mas crescemos, e, conosco, a realidade. Ela amadurece a cada decepção, e, muitas vezes, fica rígida, fria, gélida… Morta.

Chega uma hora que nadar contra correnteza fica cada vez mais cansativo. Vamos perdendo a força com o tempo, faltamos o fôlego, e, nisso tudo, nossos problemas pessoais, quando não resolvidos, vão nos puxando pro fundo, sempre pro fundo. Daí, quando simplesmente perdemos o ar, nos deixamos levar pela corrente, desistimos dos nossos sonhos e dos nossos ideais. Deixamos a moral de lado, cuspimos na ética e rimos dos outros, procurando, desesperadamente, alguém mais apodrecido espiritualmente para nos escoramos. E escorados ficamos, inertes, ironizando a própria desgraça e, claro, culpando os outros por ela.

A culpa é dos pais irresponsáveis, da mídia, da internet, do Sistema, de TODOS…

Menos de mim. Por que sou vítima, sou inocente.

Eu bebi até vomitar porque sou influenciado pelos meus amigos.

Eu traguei minha primeira droga porque meus pais fazem de minha vida uma merda.

Vida de merda…

Não pedi pra nascer!!

.

.

Mas você nasceu. Falta só viver.

Pare de culpar os outros. Há milhares que estavam em condições muito piores, mas que cresceram bastante na vida, tanto espiritual como financeiramente. Sabe qual é a diferença da vida deles para sua “vida de merda”? É que eles deixaram de culpar os outros para culparem a si próprios.

Quando você culpa a si mesmo, você pode consertar o erro.

Quando você culpa os outros, você quer que os outros se adéqüem ao mundo que você quer viver. Então você tem que esperar eles mudarem… Se eles mudarem.

Vai esperar?

 

 

 

 

Por desencargo de consciência eu vou ter que fazer isse “P.S”

EVIDENTEMENTE que nem sempre você tem culpa de tudo, mas, se você nunca fez, faça uma auto-análise. Você vera que, cooperando e sendo sensato em várias coisas pessoais suas, sua vida pode melhorar exponencialmente.

Outubro 9, 2011 / yurios

Soneto a Quatro Mãos.

Soneto a Quatro Mãos (Paulo Mendes Campos/ Vinicius de Morais)

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.
Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.
Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.
Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.

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